# Reflexões sobre o Brasil *Memórias* *por Dominic Rand* *Para Laio e Mariana, que estacionaram e entraram.* ## Nota do autor Quando me perguntavam como tinham sido minhas duas semanas no Brasil, eu tinha dificuldade de dar uma resposta que parecesse à altura. Escrever me deu espaço para entender por que certos momentos importaram tanto, e para contar mais do que uma lista de lugares por onde passei. Este é o Brasil que conheci através dos meus amigos e das famílias deles. Algumas conversas aconteceram por aplicativo de tradução, ou com alguém ajudando a gente a se entender. Sou grato às pessoas que me acolheram e que me deram tanta coisa sobre o que escrever. ## 1. Ser recebido ### Oito horas no portão de embarque Reservei um voo direto de Chicago para São Paulo porque me pareceu o jeito mais limpo de começar. Dez horas e meia no ar, voo noturno, chegada de manhã. Meu amigo Laio me buscaria, e seguiríamos cerca de uma hora de carro até a casa dele. O plano tinha aquela arrumação satisfatória de problema resolvido. Uma viagem longa de carro, um voo longo, nenhuma conexão. Não moro exatamente perto de Chicago. As cinco horas de estrada me pareceram um preço justo para evitar uma conexão. Pegou uma nevezinha no caminho, mas cheguei duas horas adiantado. Eu tinha feito o possível para manter o plano simples. No portão, as pessoas andavam de um lado para o outro, rolavam a tela do celular ou ficavam sentadas com a bagagem de mão aos pés. Tudo parecia normal, até que os atrasos começaram. Primeiro, o tempo. Duas horas. Chato, mas compreensível. Depois veio um problema de manutenção, e mais duas horas. O horário de partida mudou de novo, e o horário original foi ficando cada vez menos real. Por volta das dez da noite, os restaurantes fecharam. Ninguém tinha jantado, e o que restava eram lanchinhos. Uma hora os funcionários do portão trouxeram alguns. Foi uma pequena gentileza num lugar que ficava mais desconfortável a cada hora. Depois, o tempo de novo. À meia-noite, esperar já tinha virado a experiência inteira. Não havia nada de útil a fazer para apressar as coisas. Eu podia continuar olhando o relógio, mas isso não ia deixar o avião pronto. Aeroportos costumam tornar os estranhos invisíveis, mas oito horas num portão de embarque desgastam o anonimato. Reparei na família tentando entreter as crianças, nos casais, nas outras pessoas viajando sozinhas. Eu não sabia a história delas. Sabia que cada uma tinha um lugar para onde ir e um motivo para querer chegar lá. Nossas vidas não tinham razão nenhuma para se cruzar, a não ser o fato de termos ficado presos na mesma sala tempo suficiente para nos notarmos. Finalmente o embarque começou. Os comissários apressaram todo mundo para dentro sem a sequência habitual de grupos, e por um instante pareceu que enfim estávamos saindo do lugar. Já sentados, descobrimos o motivo da pressa. A tripulação estava estourando o limite de jornada dos pilotos. Embarcar rápido tinha sido uma tentativa de decolar antes que essa janela fechasse. Não deu. Novos pilotos tinham sido chamados, e avisaram que devíamos esperar mais umas duas horas. Todo mundo desceu do avião. A essa altura, seria fácil ficar ressentido. Eu tinha dirigido cinco horas e chegado cedo. Tinha escolhido o voo direto justamente para simplificar. Estava ali, à mão, aquele argumento conhecido de que eu tinha feito a minha parte e me decepcionaram mesmo assim. Só que nenhuma dessas escolhas me dava controle sobre o tempo, o avião ou a tripulação. Eu tinha tratado um horário como algo mais firme do que ele era. Dava para ficar chateado com o atraso sem tomá-lo como uma ofensa pessoal. Em casa, estou acostumado a um carro que espera onde eu o deixo e anda quando eu decido andar. Viajar de avião me pede para caber dentro de algo compartilhado. Eu tinha comprado um assento num avião, não o comando de tudo o que é preciso para fazê-lo decolar. Perto do portão, pequenos grupos começaram a conversar. Um grupo de brasileiros e um de mexicanos dividiam o mesmo pedaço de chão. Apareceu música. Alguém dançou, depois outros entraram na roda. Eles riram e fizeram alguma coisa com aquelas horas. Eu não me juntei a eles. Fiquei olhando. Nada no atraso tinha melhorado. O avião continuava esperando os pilotos. Os restaurantes continuavam fechados. E, mesmo assim, aquelas pessoas tinham dado um jeito de aproveitar a companhia umas das outras no meio daquilo tudo. Depois de umas oito horas no portão, os novos pilotos chegaram. Embarcamos de novo e, dessa vez, decolamos. ### Chegada Dormi um pouco no voo. Nada profundo, mas o suficiente para as dez horas e meia se comprimirem em algo estranhamente curto. Depois de tanta espera, a distância em si pareceu passar com mais facilidade. Quando pousamos, eu estava feliz de estar ali. A imigração foi tranquila, e segui por longos corredores de lojas que faziam o aeroporto parecer um pouco um labirinto da IKEA. Imaginei que encontrar o Laio exigiria a coordenação de sempre. Eu ligaria, acharia o andar certo e a área de embarque e desembarque, e tentaria entrar no carro sem atrasá-lo. Já estava pensando em como facilitar a minha chegada para ele. Aí eu saí e vi o Laio. Ele tinha estacionado. Ele tinha entrado. Ele estava esperando. Eu ainda não precisava me situar. Não precisava achar o meio-fio certo nem me preocupar em fazê-lo perder tempo. Primeiro veio o alívio prático, e depois uma gratidão que parecia maior do que o gesto pedia. Existe uma diferença entre alguém que vem te buscar e alguém que para por você. Eu estava me preparando para me encaixar no movimento do Laio causando o mínimo de transtorno possível. Ele já tinha pausado esse movimento. Estava ali para me receber, e por um instante não havia nada que eu precisasse fazer além de chegar. Voltei muitas vezes a essa sensação, porque ela expôs uma coisa incômoda. Carrego o medo de não valer a interrupção. Na minha cabeça, sou o que anda mais devagar na trilha. Todo mundo quer seguir em frente, e eu sou aquele por quem precisam esperar. Imagino ressentimento onde talvez não exista nenhum. Para não provocá-lo, tento ser eficiente e fácil, alguém que não precisa de muito. Dar é mais natural para mim do que receber. Se estou ajudando, entendo qual é o meu lugar. Quando alguém para por mim, sinto vontade de diminuir o quanto isso custa para a pessoa. A amizade muitas vezes me pareceu mais segura quando eu podia justificar meu lugar sendo útil. Receber deixava esse acordo menos garantido. Pedia que eu acreditasse que alguém podia me querer ali antes de eu ter feito qualquer coisa para compensar o trabalho. O Laio não tinha me pedido prova nenhuma. Ele tinha estacionado e entrado. Pouco depois de pegarmos o trânsito, alguém bateu de leve na traseira do carro. Estávamos no carro do irmão dele. Todo mundo desceu, olhou, e não tinha estrago nenhum. Então seguimos. O Laio não fez caso. Uma batidinha poderia ter virado o assunto da viagem inteira. Em vez disso, acabou quando não havia mais nada a fazer a respeito. ## 2. A vida de onde eu vim Durante a maior parte dos oito anos anteriores, se alguém me perguntasse quem eu era, a resposta era simples. Sou engenheiro, e me mudo muito por causa do trabalho. Em média, eu me mudava mais ou menos uma vez por ano. O trabalho decidia onde eu morava, o que eu tinha e como eu organizava meus dias. Se algum dia houvesse dúvida sobre prioridades, o trabalho vinha primeiro. Em muitos sentidos, esse foco funcionou. Fiquei bom no que fazia. Conquistei o respeito das pessoas com quem trabalhava, fui reconhecido como funcionário do ano e desenvolvi sistemas confiáveis. Eu trabalhava regularmente mais de oitenta horas por semana. Houve períodos em que o trabalho consumia quase tudo, às vezes vinte e seis horas seguidas. Nesses anos, também aprendi a ser adulto. Parei de me odiar. Aprendi a cuidar da minha saúde mental e física, a dar conta das minhas responsabilidades e a ficar à vontade sendo quem eu sou. Passei a entender melhor do que eu gostava e do que eu precisava. Essas mudanças importaram, e não quero descartá-las só porque agora enxergo o preço do jeito como eu vivia. Mas a minha vida fora do trabalho era estreita. Eu ia para casa, depois para o trabalho, depois para casa de novo. Meus hobbies eram basicamente videogame e televisão, até os últimos anos, quando comecei a ir à academia, a escrever e a fotografar. Não investia muito tempo em relações fora da família. Não namorava. Raramente me colocava em situações que exigissem algum risco emocional. Mudar o tempo todo me dava uma sensação de liberdade. Também me dava uma desculpa. Eu não podia ter relacionamentos porque não sabia onde estaria depois. Não podia me dedicar a certos hobbies porque me mudava demais. Passei anos pensando em comprar uma bateria, mas ela seria volumosa demais para levar comigo. Eu dizia a mim mesmo que essa dedicação era necessária para alcançar minhas metas financeiras. O resto podia esperar. Quando me perguntavam onde era a minha casa, eu respondia alguma versão de "onde o trabalho estiver". Era uma resposta prática para uma pergunta que podia significar muito mais. Me mantinha adaptável, mas também me deixava fugir da decisão de onde eu queria pertencer. Se ir embora já fazia parte do combinado, me segurar podia passar por bom senso. Eu não precisava admitir o quanto a possibilidade de me apegar me assustava. Na verdade, eu tinha escolhas. Tinha tempo livre. Construir uma vida mais cheia teria sido difícil, mas não impossível. Eu disse não mesmo assim. Olhando para trás, tenho sentimentos misturados. Tenho orgulho do que conquistei, e me pergunto se todo aquele sacrifício era mesmo necessário. Houve momentos em que eu poderia ter pedido ajuda ou encontrado um jeito mais sustentável de trabalhar. Em vez disso, continuei me apoiando na força de vontade até ela acabar. Quando atingi minha meta de independência financeira, em junho de 2025, minha primeira reação foi medo. O trabalho tinha dado à minha vida uma estrutura clara e uma identidade que eu entendia. Tirar essa força organizadora me deixou de frente para um tempo em aberto. Eu tinha medo de perder a noção de quem eu era e de não saber o que fazer com a liberdade que eu tinha trabalhado tanto para conquistar. Ao mesmo tempo, eu já não era a pessoa de oito anos antes. Era mais honesto comigo mesmo e ficava mais à vontade sendo visto. Escrever importava cada vez mais, principalmente publicar o que eu escrevia. Eu queria praticar a abertura em vez de guardar tudo em segurança dentro de mim. Mudar as circunstâncias não tornou isso fácil. As coisas que eu não tinha praticado continuavam difíceis. Eu podia me dar ao luxo de usar meu tempo de outro jeito, mas ainda precisava aprender como. ### O que viagens anteriores me ensinaram Eu viajava o tempo todo a trabalho, mas na maior parte do tempo meu mundo se resumia a um canteiro de obras e um apartamento. Raramente explorava os lugares onde morava. Viajar, por si só, não bastava para me deixar curioso. As experiências que mais me marcaram aconteceram antes, quando passei tempo suficiente num lugar para participar da vida comum. Em Honduras, morei dez semanas com uma família local para melhorar meu espanhol. Uma amiga da família chamada Sandra tinha crescido em Choluteca e arranjou para eu ficar com a mãe dela durante uma parte da viagem, e com a irmã dela durante outra. A Sandra me ajudou a me instalar e aparecia de vez em quando, mas a maioria dos meus dias passava sem ninguém que falasse inglês por perto. Meu espanhol melhorou. Também comecei a perceber pressupostos que eu nem sabia que carregava. Cresci no sul da Califórnia, onde mulheres de biquíni na praia não chamavam a atenção de ninguém. Em Honduras, vi mulheres irem à praia completamente vestidas. Por outro lado, amamentar em público parecia muito menos delicado lá do que em casa. Ver essas reações diferentes ao corpo das mulheres fez as regras de cada cultura parecerem menos inevitáveis. Coisas que eu tratava como óbvias muitas vezes eram só familiares. A parte mais importante daquela viagem foi algo que eu nem tinha planejado. A Sandra voltou a Choluteca para fazer trabalho humanitário. A ideia dela era gravar famílias descrevendo as condições em que viviam e depois compartilhar os vídeos com pessoas e redes nos Estados Unidos para arrecadar dinheiro e construir casas definitivas. Algumas famílias moravam em estruturas de zinco que não seguravam nem a chuva nem os bichos. As pessoas contavam de cobras que as mordiam enquanto dormiam e de água entrando pelo telhado. Crianças falavam com calma de condições que eu nunca tinha vivido. Eu estava ali de carona. A Sandra não tinha me levado para financiar nada. Pelo trabalho dela, conheci a Olga e o filho dela, Edwin. Quando entramos na casa deles, a Olga me ofereceu um abacate. A essa altura eu já entendia o quanto aceitar a hospitalidade importava nas casas que eu visitava. Recusar seria colocar o meu desconforto acima da generosidade dela, então aceitei. Mas comer foi desconfortável. Eu nunca tinha me preocupado com comida ou moradia, e estava recebendo comida de alguém que tinha muito pouco. Depois da entrevista, decidi ajudar a garantir uma casa para a Olga e o Edwin. A casa foi construída por uns dez mil dólares enquanto eu ainda estava em Honduras. Eu estava lá quando ficou pronta, e comemorei com eles. Quando fui visitá-los, a Olga me abraçou como a um filho. Ainda lembro da inteireza com que ela expressou sua gratidão. Eu tinha ido a Honduras para aprender uma língua. Nada naquele propósito original teria previsto que eu comemoraria a conclusão da casa dela. Idaho começou com outro objetivo prático. Fui passar um tempo com um amigo da família chamado Gary para aprender sobre finanças pessoais, investimentos e independência financeira. Ele tinha construído a vida em torno dessas ideias, e eu queria entender como. Conversamos sobre dinheiro. Mas o Gary e a família moravam numa fazenda, e os dias me ensinaram coisas que as nossas conversas não conseguiam. Eles criavam ovelhas e plantavam milho. Aprendi a instalar sifões para a irrigação, a dirigir trator e a juntar as ovelhas no curral. Também enterrei ovelhas. A morte era visível ali de um jeito que não era na minha vida comum. Animais nasciam e morriam. As plantações cresciam e eram colhidas. O trabalho seguia através dessas mudanças. Com o tempo, aquilo foi me chocando menos. O pai do Gary era idoso e ainda trabalhava sem parar. Quando perguntei por que ele continuava, a resposta foi que, se parasse, morreria. No começo, aquilo me soou sombrio. Com o tempo, entendi como uma afirmação sobre propósito. O trabalho dava a ele um motivo para levantar da cama. Uma vida que exigia algo dele podia sustentá-lo. Eu tinha ido até lá querendo aprender a alcançar a independência financeira. Saí com ideias mais complicadas sobre para que eu talvez quisesse essa independência. ### Deixar espaço Pouco depois da faculdade, li *Vagabonding*, de Rolf Potts. O que tirei dele foi o valor de ficar num lugar tempo suficiente para fazer mais do que só passar. Gostei da ideia de viajar leve, inclusive nas expectativas que eu levava. Demorei mais para praticar isso do que para entender. Eu podia ficar tão ocupado comparando uma viagem com o que eu esperava dela que perdia o que estava disponível. Fingir que não tinha expectativa nenhuma também não ajudava. As que ficavam caladas continuavam me afetando. Ajudava mais reconhecer o que eu estava pedindo de uma experiência e deixar espaço para ela me surpreender. Honduras e Idaho cumpriram os propósitos que eu levei para lá. Também ganharam sentidos que eu jamais poderia ter encomendado de antemão. O Brasil começou com um convite do Laio, um amigo que eu tinha conhecido num canteiro de obras mais ou menos um ano antes. Ele tinha se oferecido para me receber em São Paulo. Era o tipo de oferta generosa que pode ficar para sempre como uma ideia bonita, a não ser que alguém leve adiante. Nessa fase de transição da minha vida, me lembrei dela e fui atrás. Antes de ir, escrevi uma carta para ele explicando como eu esperava encarar a viagem. Não estava pedindo programação o tempo todo, nem que todo dia fosse profundo. Eu queria ver a vida dele, experimentar coisas novas e perceber o que era diferente de casa. O Laio ia planejar boa parte do meu tempo. Eu ia entrar na rotina e nas relações dele. Quanto mais exigências eu levasse, menos espaço sobraria para o que ele quisesse compartilhar. Eu sabia muito pouco sobre o Brasil. O Laio era um dos poucos brasileiros que eu tinha conhecido pessoalmente. Eu não tinha nenhuma vivência dos lugares que íamos visitar nem das casas onde íamos ficar. Não dava para me preparar para entender tudo. Dava para me preparar para perguntar, ouvir e aguentar não ter certeza. Era isso que eu esperava quando aceitei o convite do Laio. Eu tinha pedido para conhecer a vida dele, e agora estava prestes a entrar na casa que ele dividia com a Mariana. ## 3. Viver de perto ### Sem recuo Quando ouço a palavra casa, penso na Califórnia. Penso numa construção separada, com espaço em volta, um lugar onde posso fechar a porta e deixar o resto do mundo do lado de fora. Mesmo depois de anos morando em apartamento, ainda quero que a casa seja o lugar onde o barulho para. Fico frustrado quando os vizinhos fazem barulho, como se o som atravessando essa fronteira fosse prova de que algo deu errado. A casa do Laio desafiou essa imagem quase de imediato. Era uma construção independente, com paredes próprias, mas as casas vizinhas encostavam direto nela. A casa ocupava o terreno inteiro. Não havia nenhuma faixa de espaço separando uma vida da outra. Eu ouvia gente na rua, cachorros pelo bairro, conversas e movimento ali do lado. Ficava mais difícil esquecer que havia outras pessoas vivendo ao nosso lado. Nas casas que conheci na infância, receber alguém muitas vezes exigia preparação. A gente limpava e arrumava. Deixava a vida privada apresentável antes de deixar alguém vê-la. O Laio e a Mariana pareciam à vontade em me deixar entrar na vida que eles já tinham. A Mariana era noiva do Laio. Eles estavam juntos havia quase uma década e moravam juntos fazia bastante tempo. Eu tinha vindo ver meu amigo, mas estava me hospedando numa casa que os dois tinham construído juntos. Ela me recebeu com carinho. Depois, pediu licença e foi se deitar. Só mais tarde ela me contou a pressão que tinha sentido para se comunicar em inglês. Ela estudava a sério havia anos e tinha uma sequência de mais de mil dias no Duolingo. Queria se comunicar bem e ajudar a fazer da visita algo bom. O corpo dela tinha reagido à pressão antes que ela mesma entendesse direito. Eu não tinha percebido nada disso na chegada. Ouvi-la explicar me fez valorizar o quanto de esforço pode haver por trás de uma recepção que parece fácil de receber. Quando o Laio me mostrou a casa, entramos num quarto. Levei um momento para perceber que era o deles. Só havia uma cama, então perguntei onde eles iam dormir. Ele disse que eles iam ficar no sofá. Recusei na hora e fiquei eu com o sofá. Eu queria aprender a aceitar melhor a hospitalidade, mas não precisava da cama deles para me sentir bem-vindo. Eu estava entrando numa casa arrumada para duas pessoas. Algum ajuste era inevitável, e eu podia dividir esse ajuste. Dormir no sofá era um preço pequeno pela chance de ficar com eles. Naquela noite saímos para comer e depois caminhamos pelo bairro para tomar alguma coisa. Casas e comércios se misturavam. Bares, mercados, academias, pet shops, estúdios de tatuagem. Às vezes um prédio parecia residencial até eu reparar no que estava acontecendo lá dentro. Não havia os grandes estacionamentos e as separações rígidas que eu esperava. Dava para circular a pé entre as partes comuns da vida. Me peguei ligando essa mistura ao jeito como eu dividia a minha própria identidade. Durante anos, engenheiro tinha sido a categoria que me explicava. Escrita, música, fotografia e todo o resto tinham que se encaixar em volta dela. Eu tratava esses interesses como menos reais porque não eram o meu trabalho principal. A Mariana tornou essa divisão mais difícil de sustentar. Ela também tinha estudado engenharia, e a vida dela tinha espaço para outras coisas. Perto dela, eu me sentia mais disposto a deixar as partes de mim conviverem, sem decidir qual delas valia mais. Eu ainda valorizava o silêncio. Ainda queria privacidade. Mas estar naquela casa me fez questionar quanta distância eu tinha passado a tratar como necessária. Eu conseguia ouvir o bairro porque, por um tempinho, eu fazia parte dele. Havia algo de reconfortante nisso, mesmo quando era barulhento. ### Primeiro, o café da manhã Acordei no sofá do Laio com passos, motos, carros e o som movimentado de São Paulo logo ali fora. Logo o Laio apareceu, e tomamos café da manhã. Em casa, não tenho o hábito de tomar café da manhã. Se como alguma coisa de manhã, muitas vezes é um shake de proteína antes de seguir com o dia. Ali, a gente sentava e comia junto. Na maioria das manhãs da viagem, a comida era simples. Pão francês com manteiga, queijo e algum frio. Fruta do lado, muitas vezes mamão. Os detalhes variavam, mas o encontro sempre acontecia. No começo eu não entendi o quanto aquilo era comum. Depois percebi que ninguém perguntava se a gente queria tomar café. As pessoas iam aparecendo na cozinha. Alguém preparava a comida. Os pratos surgiam. Comer junto era um dado. Eu gostava de ter aquele começo já decidido. Não precisava escolher entre correr para fazer algo produtivo e arranjar tempo para as outras pessoas. A manhã tinha espaço para elas antes que qualquer uma dessas perguntas aparecesse. Depois do café, o Laio disse que precisávamos alugar um carro. O hatch da Mariana levava as pessoas, mas não havia espaço para nós três e as malas. Alugamos um SUV compacto que, lá em casa, seria considerado pequeno, mas que parecia grande perto de muitos carros que vi no Brasil. Até a minha noção de tamanho normal precisou de ajuste. As faixas e as vagas eram mais apertadas. Os carros que eu considerava pequenos pareciam perfeitamente adequados aos lugares onde eram usados. Arrumamos as coisas e saímos. Já na estrada, perguntei quanto tempo íamos ficar no carro. Não perguntei para onde estávamos indo. ### Mariana cantando Uns trinta minutos de viagem depois, a conversa silenciou. A Mariana disse que queria cantar para a gente, e eu incentivei. Ela cantou junto com músicas em português e em inglês. A pronúncia dela em inglês era impressionante, mesmo em músicas cujas letras ela não entendia totalmente. Tinha aprendido de ouvido. O melhor inglês que ouvi dela na viagem muitas vezes foi quando ela cantava. Então ela colocou "Veludo Marrom", da Liniker. A música me deixou de queixo caído. Tinha algo de cinematográfico, com trechos pacientes e mudanças de intensidade grandes o bastante para me fazer parar de pensar em qualquer outra coisa. Ela confiava no ouvinte o suficiente para não ter pressa. Eu queria ficar com ela e ouvir o que vinha depois. O cenário também importava. Estávamos num carro, um lugar que eu costumo tratar como algo a suportar até chegar. A Mariana estava compartilhando uma coisa que ela praticava e que era importante para ela, e eu pude ouvir aquilo bem ao lado dela. Foi íntimo testemunhar aquilo: alguém me deixando ouvir uma parte da vida dela que eu jamais descobriria perguntando o que ela fazia da vida. Eu costumo dividir o tempo entre a coisa e a espera pela coisa. Uma viagem longa de carro vira custo operacional. Minha atenção tenta pular para onde eu acho que o valor vai estar. Às vezes imagino uma versão futura de mim olhando para trás e se arrependendo das horas que tratei como descartáveis. O presente pode estar perfeitamente bom e mesmo assim perder minha atenção para o que vem depois. Não quero perceber só depois que eu já estava onde queria estar. Naquela viagem, eu nem sabia qual era o destino. Não havia nenhum lugar específico para onde minha cabeça pudesse correr. Eu podia ouvir a Mariana, prestar atenção na música e estar no carro. O caminho já fazia parte do que eu tinha vindo buscar. ### Sorocaba Em algum momento saímos da rodovia, e o Laio me disse que estávamos em Sorocaba. Íamos para a casa dos pais da Mariana. Ela tinha nascido em Serranos, uma cidadezinha em Minas Gerais, e passado o começo da infância lá antes de a família se mudar para Sorocaba. A casa dos pais dela ficava na periferia da cidade, em outro bairro onde as casas ficavam coladas umas nas outras. Levamos as malas para dentro. Conheci os pais dela, e a Mariana me levou para o andar de cima, para o quarto que tinha sido dela na infância. Havia algo diferente em ficar naquele quarto. Eu não estava chegando num lugar preparado para viajantes anônimos. Estava pegando emprestado um espaço dentro de uma família com uma história que vinha de muito antes de mim. A mãe dela fez um almoção. Arroz, feijão, carnes, pratos que eu reconhecia e outros que não. Um dos meus favoritos foi o feijão tropeiro, feijão misturado com farinha de mandioca, ovo e pedacinhos de carne. O Laio fez uma caipirinha com cachaça, limão, açúcar e gelo. Experimenta isso. Prova aquilo. Quase tudo o que me passavam era bom. Alguém me entrega uma comida que come há anos e fica olhando meu rosto mudar. Para eles, é uma terça-feira qualquer. Para mim, é uma descoberta. No dia seguinte, o Laio ia me apresentar a coxinha. Eu tinha lido sobre ela antes da viagem e comentado que queria provar. Um salgadinho frito em formato de gota, massa macia envolvendo frango desfiado. Virou favorita na hora. Até hoje sinto falta. O Laio e eu tínhamos conversado sobre gente que viaja para fora e fica procurando a comida reconfortante de casa. A piada era o americano que vai à França e se decepciona com os hambúrgueres. Eu entendia a vontade de algo conhecido, mas não queria passar essa viagem procurando uma imitação de casa. A comida que a mãe da Mariana fazia já era comida afetiva. Eu só não tinha crescido com ela. Depois daquele primeiro almoço, subi e tirei um cochilo no antigo quarto da Mariana. Não havia nenhuma pressão para transformar a tarde em alguma coisa. Por um tempo, pude simplesmente descansar no lugar que eles tinham preparado para mim. Enquanto eu dormia, o Laio e a Mariana saíram para resolver umas coisas. Quando acordei, a casa continuava no mesmo ritmo sem pressa. Nada tinha acelerado enquanto eu estava fora. Nada estava esperando eu correr atrás. Depois, passei um tempo com o Laio e o pai dela vendo o jornal local. Eu esperava política brasileira ou notícias regionais que me lembrassem de que eu estava longe de casa. Em vez disso, a cobertura voltava o tempo todo para a política americana. Eu tinha voado até o Brasil e continuava ouvindo falar do Trump. Em certo momento, o pai da Mariana trouxe uma arma de brinquedo que atirava bolinhas de gel e brincou que era igual às armas que tinham no Rio. Não lembro das palavras exatas. Lembro da naturalidade da piada, e de como ela soou diferente naquela sala de estar em comparação com as associações que eu tinha trazido comigo. Mais tarde, caminhamos pelo centro de Sorocaba e por um parque. Andamos e conversamos sem tentar fazer grande coisa. ## 4. Uma música de cada vez ### Little Paul's Naquela noite, fomos ao Little Paul's Bar para ouvir música ao vivo e dançar. Eu estava animado. Também sabia muito bem que não tinha muito histórico de dança. Durante anos eu tinha me definido como alguém que não dança. Quanto mais eu dizia isso, menos eu me perguntava se de fato queria dançar. Eu tinha feito a inexperiência soar como autoconhecimento. O Little Paul's parecia ter sido, em outra vida, uma oficina mecânica ou uma tornearia. Era um salão grande de concreto, pé-direito alto e um portão de garagem na entrada. Pôsteres, instrumentos, quadros e adesivos cobriam as paredes. Eu não sabia a história do lugar, mas gostei do jeito como ele parecia ter se acumulado com o tempo. Pegamos bebida. Tomei Original, que virou minha cerveja de sempre no Brasil. O rótulo e a palavra ORIGINAL foram ficando familiares. Viajar tira tantos pequenos hábitos automáticos que reencontrar um deles pode ser surpreendentemente reconfortante. Eu gostava de ter uma escolha simples que pertencia ao lugar onde eu estava. Nos fundos, descemos para um pátio de concreto. A banda estava se montando num canto, com um espaço aberto na frente. Mesas e cadeiras de plástico ocupavam as bordas, e carros antigos ficavam espalhados pelo perímetro. Foi chegando mais gente. O espaço foi enchendo aos poucos, e então a banda começou. ### Contando o tempo Eram três músicos. Um sanfoneiro, um percussionista e um violonista que cantava. Depois aprendi o nome zabumba para aquele tipo de tambor grave que segurava a batida. Naquela noite, eu basicamente sabia que conseguia sentir onde estava o pulso. A Mariana me ensinou um passo básico de forró. A gente ia para um lado, juntava os pés, ia de novo e marcava. Depois invertia. Ela segurava minhas mãos e contava em voz alta. Escrito assim, parece fácil. Tentar fazer isso conectado a outra pessoa, sem pisar no pé dela, já bastava para me ocupar inteiro. A Mariana teve paciência com todos os meus erros. Imaginei que não devia ser nada empolgante, para alguém com a habilidade dela, dançar no meu nível, mas ela parecia feliz por eu estar disposto a tentar. Por um tempo, eu controlava tudo conscientemente. Pés, direção, tempo, a distância entre nós. Estava tentando administrar o fato de ser um americano aprendendo uma dança brasileira numa sala cheia de gente que parecia saber exatamente o que estava fazendo. Então a música e a contagem dela começaram a se alinhar no meu corpo. Eu não fiquei bom de repente. Só passei a precisar de menos esforço para acompanhar. Meus ombros relaxaram. Olhei menos para os pés e ouvi mais. ### Na beira da piscina Aquilo me lembrou de uma viagem a Nova Orleans, pouco mais de um ano antes. Lembrei de caminhar pela Frenchmen Street com música transbordando pelas portas. Metais, tambores, vozes. Tinha tanta coisa acontecendo, e eu me mantinha na beirada. Música ao vivo muitas vezes era assim para mim. Eu conseguia apreciá-la continuando separado dela, como quem olha um aquário. Perto o bastante para ver o que acontecia, mas fora do mesmo elemento. Em Nova Orleans, uma amiga que estava com a gente entrou no espaço em frente à banda e dançou. Ela não parecia precisar de nenhum motivo além da vontade de se mexer. Olhando para ela, me perguntei por que eu continuava parado onde estava. A imagem que sempre me voltava era a de uma piscina. Quando criança, se meus amigos estavam na água rindo, eu queria estar lá dentro com eles. Adulto, eu conseguia ficar na beira de algo gostoso explicando que aquilo não era muito a minha praia. Às vezes era uma preferência sincera. Às vezes era um jeito de me proteger de ser visto tentando. Nova Orleans não tinha me ensinado passos de dança. Tinha me deixado menos seguro da identidade que eu usava para fugir deles. Agora, no Little Paul's, a Mariana estava me ajudando a atravessar o começo que eu tantas vezes tinha recusado. O lugar também ajudava. Dançar parecia fazer parte natural de estar ali. As pessoas formavam pares para uma música e se separavam quando ela acabava. A pista quase esvaziava antes da próxima música começar e as pessoas acharem novos pares. De onde eu estava, o convite parecia administrável. Um sim podia significar uma música. Um não não precisava significar nada maior. A gente podia dividir alguns minutos e se separar quando a música parasse. Eu tinha imaginado entrar numa pista de dança como me submeter a um julgamento. Os limites comuns de uma única música tornavam mais fácil tentar. Eu queria ficar à vontade para chamar alguém para dançar comigo. Isso deu ao português um propósito imediato. Eu não precisava de fluência para começar. Precisava do suficiente para me apresentar e pedir uma dança. ### Rafael, Amanda e João No meio do show, o irmão da Mariana, Rafael, chegou com a Amanda, que era namorada dele na época, e o filho dele, João. O Rafael tinha uma gargalhada que atravessava a música. Se ele estava numa festa, dava para saber onde ele estava pelo som. A Amanda parecia mais quieta, e o João estava tímido no começo. Me apresentei com o português que eu tinha. "Eu sou Dominic... muito prazer." O Rafael e a Amanda pareceram gostar do esforço. O João não me entendeu. Depois de eu tentar umas duas vezes, o Rafael ajudou a explicar. Aquilo me trouxe de volta a vergonha de falar espanhol em Honduras e ver um rosto ficar em branco. Como falante nativo, às vezes eu mesmo não tinha entendido alguém que estava quase dizendo o que queria. Nem sempre soube como preencher essa lacuna. Estar do outro lado fazia ela parecer muito maior. Não me ofendi com o João. Ele era uma criança tentando entender um sotaque estranho. Mais tarde, com o Rafael traduzindo, achamos um assunto que ele queria conversar. Bichos e dinossauros. Aí vieram os fatos e as perguntas. A timidez que eu achei ter visto deu lugar ao entusiasmo. Ele tinha muito a dizer quando a gente acertava um assunto que o interessava. ### Estrutura suficiente para dançar Conforme a noite avançava, fiquei observando os dançarinos mais experientes. Eles giravam e mudavam de direção com uma fluidez que parecia ensaiada. A Mariana dançou com homens que ela não conhecia, e ficava mais fácil ver o talento dela quando estava com alguém capaz de responder no mesmo nível. Assistir aquilo era como ouvir uma língua falada com fluência. Eu reconhecia a naturalidade mesmo sem entender como ela era produzida. Todo mundo parecia compartilhar o suficiente da dança para improvisar junto. O ritmo e o movimento básico davam a eles algo em que confiar. Dentro disso, havia espaço para variação. Gostei desse equilíbrio. Meus melhores dias também têm coisas com que posso contar. Acordar num horário regular, ir à academia, comer em horários conhecidos. Esses hábitos me dão forma suficiente para eu não ter que inventar o dia inteiro. Mas, se cada parte já estiver decidida, não sobra muito espaço para responder a nada novo. Eu tinha passado anos usando a rotina para manter o trabalho confiável. Ver aquela dança me fez pensar no que mais uma rotina podia tornar possível. O Laio me contou que não gostava muito de dançar, mas dançava porque a Mariana amava. Em certo momento, ele e eu combinamos de revezar com ela para que ela pudesse continuar. Música, canto, dança, sorvete. A alegria dela com essas coisas era imediata e fácil de ver. A gente já estava ali. Podia ajudá-la a aproveitar a noite. No fim, eu ainda não diria que sabia dançar forró. Mas tinha parado de passar a noite decidindo se eu pertencia à pista. Queria voltar sabendo pedir, em português, uma música. ## 5. Uma tarde na represa ### Os chinelos Na manhã seguinte ao forró, tomamos café e fomos até a Represa de Itupararanga, fora da cidade. Antes de sairmos, a mãe da Mariana perguntou onde estavam os meus chinelos. No começo não entendi. Usamos um aplicativo de tradução até a mensagem ficar clara. Eu ia levar chinelos. Nunca gostei de chinelo. A frouxidão, a tira entre os dedos, aquele plec-plec constante que faz parecer que meus pés estão calçando instrumentos de percussão. Normalmente prefiro ficar descalço. Se preciso de sapato, gosto daqueles minimalistas, bem finos, que me deixam sentir o chão. Nada disso fazia muita diferença para uma mãe insistente tentando cuidar de mim através de uma barreira de idioma. Levei os chinelos. E aí carreguei os chinelos a maior parte do dia e quase não usei. Quando voltamos, ela pareceu compreensivelmente confusa. Para que levar, se não era para usar? Eu não tinha nenhuma resposta satisfatória, só um sorriso sem graça e a consciência de que ela tinha feito bem em insistir mesmo assim. Atravessamos uma barragem estreita, de uma pista só, e chegamos a um terreno com um quê de acampamento de férias. A Mariana conhecia alguém ali, e o caseiro nos deixou entrar mesmo sendo dia de semana. Descarregamos as pranchas de stand-up e levamos na direção da água. Nessa hora, fiquei descalço de vez. O chão estava quente. O caminho tinha terra áspera e pedras pontudas perto da margem. Carregar uma prancha por ali foi desconfortável, em parte por pura teimosia minha. A cada poucos passos eu tinha que prestar atenção em onde pisava. Eu andava lendo *Nascido para correr*, de Christopher McDougall, e pensando em sensação e resposta do corpo. Estar descalço fazia o chão ser mais difícil de ignorar. Isso era parte da graça, mesmo quando doía. Depois de levar uma prancha até a água, voltei para buscar outra para a Mariana. Eu não tinha perguntado se ela queria. Ela não queria. Então carreguei a prancha de volta. Uma viagem extra completa, por um chão que eu já sabia que era desagradável, porque tinha resolvido ajudar sem checar o que ajudaria. A Mariana ficou debaixo das árvores. Tinha música, petiscos e sombra, e parecia totalmente satisfeita. Gostei de ver alguém aproveitar o dia sem precisar fazer a atividade que eu tinha presumido ser o motivo do dia. Antes de o Laio e eu entrarmos na água, passamos protetor solar. A pele dele é mais clara e queima fácil, então ajudei nas costas. Fiz com pressa e deixei partes sem passar. Só íamos descobrir o tamanho do estrago mais tarde. ### Na água Depois que começamos a remar, o dia ficou simples. Céu limpo, sol forte, água calma. Ao longo da margem, a mata era tão fechada que parecia uma parede. Um verde tão compacto que eu não conseguia enxergar lá dentro. Ela crescia até a beira da água, como se a represa tivesse sido escavada em algo pronto para retomar o espaço. O Laio e eu não conversamos muito. A gente remava e olhava em volta. A água parada me deu tempo de absorver os contornos do lugar. No silêncio, comecei a me lembrar de viagens em família para lagos. Almanor, Havasu, Tulloch. Barcos, cordas de reboque, dias longos no sol. Uma lembrança se destacou com nitidez: pular de um penhasco com minha irmã mais velha, Michaela. A decisão rápida na beirada, depois a queda e o choque da água. Lembrei da boia sendo rebocada enquanto meu pai e o amigo dele, Skip, tentavam derrubar a gente. A boia chicoteava numa curva até a gente não conseguir mais segurar. Bater na água em alta velocidade fazia ela parecer sólida. Entrava água pelo nariz e ia parar no fundo da garganta. Era violento e alegre ao mesmo tempo. O que me chamou a atenção foi como essas lembranças tinham sobrevivido ao meu hábito adolescente de querer estar em outro lugar. Com a família, eu queria estar com os amigos. Com os amigos, às vezes queria ficar sozinho. Onde quer que eu estivesse, minha cabeça conseguia fabricar uma alternativa melhor. Os momentos de que eu lembrava com mais clareza eram os fortes o bastante para interromper essa discussão. Eu estava envolvido demais no que acontecia para continuar imaginando outro lugar. Remando ao lado do Laio, percebi essa sensação enquanto ela acontecia. Não havia nenhum outro lugar onde eu quisesse estar. Eu não precisava me convencer disso. ### De volta à margem Quando voltamos, a Amanda e o João estavam lá. O João quis subir numa prancha na hora. Insistimos no colete salva-vidas, e ele olhou para a Amanda. Ela deu um pequeno sinal de concordância, e ele aceitou. A Amanda namorava o pai dele. Eu não conhecia todos os detalhes da vida familiar deles, mas conseguia ver a confiança naquela troca. Ela sabia manter um limite sem transformar aquilo numa briga. O João olhava para ela para confirmar o que era seguro. O Laio levou o João para a água. A empolgação dele não tinha vergonha nenhuma. Na idade dele, eu muitas vezes escondia o quanto estava empolgado, como se demonstrar prazer me fizesse parecer ingênuo. Ele não estava preocupado com isso. O resto de nós ficou na sombra com petiscos e bebidas. Em algum momento, os cinco estávamos em pé na água rasa perto da margem, conversando numa mistura de português e inglês. Ninguém parecia preocupado em entender cada frase perfeitamente. Eu estava me acostumando com esse tipo de participação. Não conseguia acompanhar tudo, mas perder algumas palavras não me deixava automaticamente de fora do grupo. Eu podia ficar, ouvir e deixar que as partes que eu entendia bastassem por um tempo. Depois da represa, resolvemos umas coisas na rua e passamos na loja de roupas da mãe da Mariana. Em geral trato roupa como algo prático. Me cobrir, parecer apresentável, não gastar muito tempo pensando nisso. A Mariana prestava mais atenção. Durante toda a viagem, ela usou cores e combinações que pareciam naturais nela e que eu jamais escolheria para mim. Eu não tinha planejado comprar nada, mas queria agradecer à mãe dela. Ela tinha me alimentado, me hospedado e tentado proteger meus pés das minhas próprias decisões. Comprar algo na loja dela parecia um jeito de expressar gratidão sem depender de tradução. Pedi para a Mariana me ajudar a escolher uma camisa. Ela chegou a duas. Uma era azul-escura com abacaxis laranja vivo. A outra era azul com silhuetas de coqueiros. Nenhuma parecia com as roupas que eu costumo usar. Ela não conseguiu decidir. Comprei as duas. Não perguntei o preço antes. Naquele momento, agradecer à mãe dela importava mais para mim do que escolher com cuidado entre duas camisas. Usei as duas muitas vezes depois e gostava de como me sentia nelas. Estar num lugar novo facilitava experimentar algo que eu talvez descartasse em casa. ### O churrasco do Elton Naquela noite fomos a um churrasco na casa do Elton. Eu o tinha conhecido na noite anterior e lembrava do entusiasmo dele por cerveja bem gelada. Canela de pedreiro. Era como ele chamava a cerveja tão gelada que o copo ficava coberto de uma geada branca, igual à canela de quem passou o dia no meio do cimento. Eu achei a imagem perfeita. Primeiro veio a cerveja, depois a churrasqueira, depois as pessoas. O Elton cuidava da comida e do tempo de cada coisa, e fazia com que fosse fácil se acomodar. Um churrasco dava a todo mundo um lugar para estar sem exigir muito mais do que aparecer. Isso era algo que eu começava a valorizar nos encontros de que participava. O esforço de alguém permitia que todos os outros relaxassem. A churrasqueira precisava de atenção, mas os convidados não precisavam ficar inventando um motivo para ficar. Tinha comida, companhia e tempo suficiente para a noite encontrar o próprio ritmo. Alguém contou de uma festa anterior em que o pessoal tinha deixado latas de cerveja em cima do carro do Elton. A cerveja derramou, e na manhã seguinte ele foi trabalhar com as latas ainda grudadas no teto. Pelo jeito, o pessoal ficava bem à vontade na casa dele. Conversei mais com a Amanda. Ela me falou de anos difíceis, de confusão, e de ter dado um passo atrás para ganhar perspectiva. O inglês dela era fluente. Eu não parava de perceber o quanto da vida das outras pessoas eu conseguia ouvir porque elas tinham aprendido a minha língua. Era fácil receber essa ajuda sem notar direito o esforço por trás dela. Mais tarde, todo mundo se juntou para cantar. Alguém me passou a escolha das músicas, e eu escolhi as que achei que o pessoal conheceria. "Under the Bridge", do Red Hot Chili Peppers. Sublime. Em algum momento, "Bohemian Rhapsody", que parece trapaça, porque transforma praticamente qualquer grupo num coral. Eu adoro o momento em que uma música começa e o ambiente muda. As conversas param. As pessoas reconhecem, entram junto e cantam mais alto do que esperavam. Voltamos a pé depois. Mais tarde, naquela noite, a queimadura do Laio ficou evidente. Meu protetor solar tinha deixado uma espécie de continente vermelho nas costas dele. Parecia arte moderna. A gente riu, e eu pedi desculpas, sabendo que nem uma coisa nem outra ia fazer a queimadura sumir. Quando me deitei, senti que tinha sido carregado por um dia feito de cuidado. Parte dele tinha sido fácil de receber. Parte tinha chegado na forma de instruções sobre chinelos. Muito dele já tinha virado rotina antes que eu parasse para perceber. Dormi cansado e grato, surpreso com a rapidez com que o Brasil tinha começado a parecer um lugar ao qual eu podia pertencer. ## 6. Uba-chuva ### Quatro no carro Na manhã em que saímos de Sorocaba, tomamos café, arrumamos as coisas e agradecemos aos pais da Mariana. Eles tinham aberto espaço para mim com tanta naturalidade que ir embora parecia menos fazer check-out e mais me afastar de uma rotina da qual eu tinha feito parte por um tempinho. Antes de sairmos da cidade, pegamos a Livia, uma amiga de longa data da Mariana. Ela trouxe uma mochila cargueira com as roupas e o essencial. Nosso carro já tinha exigido um encaixe cuidadoso. Agora tínhamos mais uma pessoa e mais uma bolsa. O Laio brincava que a Mariana e a Livia eram praticamente gêmeas. A intimidade entre as duas tornava a comparação compreensível. Elas conversavam em português, riam, ficavam em silêncio e retomavam sem precisar explicar onde tinham parado. Em certo momento, dividiram morangos mergulhados em leite condensado. Depois, tomaram o leite condensado puro. A Livia não falava inglês, e meu português era básico. Usávamos um aplicativo de tradução, às vezes com a ajuda do Laio. Havia um atraso entre nós, mas ela transmitia calor e serenidade mesmo quando nossas trocas eram curtas. Com a Mariana e a Livia conversando no banco de trás, o Laio e eu engatamos uma conversa na frente. Uma das coisas que valorizo no Laio é quanto tempo ele fica com uma ideia. Ele faz uma pergunta, ouve a resposta e segue a parte que parece importar para mim. Não me sinto apressado a chegar a algum lugar antes que a atenção dele vá para outra coisa. Contei para ele que estava jogando *The Last of Us Part II* na dificuldade Grounded. A escassez mudou o jogo para mim. Sem munição suficiente nem margem para erro, eu passava mais tempo me escondendo, ouvindo e esperando. Prestava atenção em decisões pelas quais, de outro jeito, eu passaria correndo. O Laio me contou que, quando criança no Brasil, jogava jogos piratas, incluindo uma cópia de *Mario 64* em inglês. Ele e o irmão aprenderam sozinhos inglês suficiente para avançar. Os jogos eram caros e difíceis de conseguir, ele explicou, então eles jogavam os que tinham de novo e de novo e aprendiam cada detalhe. Ter menos opções tinha nos mantido com um jogo tempo suficiente para descobrir mais dele. Aquilo me lembrou do jeito como o Laio escutava. Ele ficava numa conversa tempo suficiente para haver mais o que ouvir. ### Serra abaixo na chuva Por um tempo, a estrada passou por trechos secos, quase áridos. Depois as nuvens engrossaram, subimos, e a vegetação ficou mais densa. Começou a chover. O Laio me disse que estávamos indo para Ubatuba. Ele chamava de Uba-chuva, uma piada sobre o quanto chove lá. Logo estávamos descendo curvas fechadas no meio da Mata Atlântica, com pouca visibilidade e a água caindo cada vez mais forte. Ele também me contou do Cemitério de Calotas. Explicou que os motoristas desciam a serra no freio, superaqueciam os freios e iam perdendo calotas pelo caminho. Eu via as calotas. Havia montinhos delas à beira da estrada, o suficiente para o nome fazer sentido sem mais explicações. Lá embaixo, a paisagem tinha mudado completamente. Ubatuba me lembrou uma pequena cidade de surfe da Califórnia, só que mais úmida e menos arrumadinha. Placas pintadas à mão, lojas despretensiosas, areia avançando pelas calçadas. A familiaridade tornava fácil gostar dela, enquanto a mata e a umidade não deixavam que parecesse a minha casa. Encontramos o resto do grupo do fim de semana num restaurante. Me apresentei em português, recebi sorrisos e fiquei aliviado quando quase todo mundo passou para o inglês. O Daniel tinha uma energia brincalhona que combinava fácil com a do Laio. A Natalia parecia calorosa e observadora. A Carol era gentil e direta, alguém que ouvia com atenção. O Raphael era mais quieto. Uma das primeiras coisas que descobri sobre ele foi que jogava tanto FIFA que os amigos o chamavam de Rafifa. Eram primeiras impressões. Eu ia conhecê-los melhor quando tivéssemos tempo juntos. ### Mercado e uma proposta Depois do almoço, compramos as coisas para o Airbnb. O carro já estava lotado, com a mochila da Livia espremida entre ela e a Mariana no banco de trás. As compras foram para o chão e para o nosso colo. Em certo momento, eu não tinha nenhum lugar razoável para pôr os pés. A casa ficava cercada de verde fechado numa encosta. Construções diferentes abrigavam os quartos e as cozinhas. Havia um bar ao ar livre, caminhos de pedra e uma piscina de água doce abastecida pela água de um riacho. A chuva tinha escurecido a madeira e a pedra, e a grama parecia especialmente viva. Era sexta-feira, e a maior parte do grupo ainda tinha trabalho remoto para terminar. O Laio, a Mariana, a Livia e eu fomos para a praia. Uns dias antes, o Laio tinha recebido uma proposta ligada a voltar para os Estados Unidos a trabalho. Tínhamos conversado sobre isso, embora eu tivesse mais ouvido do que falado. A decisão era dele, com consequências para uma vida que eu só conhecia em parte. Na praia, ele e a Mariana conversaram sobre o que aquilo significaria. A oportunidade importava profissionalmente, mas aceitá-la também significaria um tempo separados. O trabalho da Mariana era no Brasil. Uma oportunidade para um deles exigiria ajustes dos dois. Gostei de ver que eles não fingiam que a escolha era simples. Eu sabia com que facilidade o trabalho podia virar a resposta antes que as outras perguntas fossem feitas por inteiro. Ali, eu estava vendo duas pessoas tentando levar em conta ao mesmo tempo a ambição e o relacionamento. ### Uma conversa com a Livia Enquanto eles conversavam, tive um tempo sozinho com a Livia. Passávamos meu celular de um para o outro, falando no aplicativo de tradução e esperando cada resposta. Parecia uma troca de cartas na praia. Havia pouco espaço para falar um por cima do outro ou para ajustar um pensamento enquanto eu o dizia. Cada vez levava tempo. Cada resposta dava trabalho. E nós dois continuávamos ali, passando o celular de volta, tentando entender. Ela me contou que tinha se divorciado recentemente. Descreveu ter tentado por muito tempo fazer o relacionamento dar certo, até reconhecer que o futuro que ela tinha imaginado não cabia mais na vida que ela estava vivendo. Deixar ir podia doer mesmo quando continuar já não fazia sentido. Um casamento contém planos e rotinas, mas também expectativas sobre quem você vai se tornar e sobre como vai ser o depois. Ouvindo a Livia, entendi melhor o que pode significar viver o luto de um futuro que nunca chegou a acontecer. A perda que ela descrevia era real, mesmo com todas as pessoas envolvidas ainda vivas. Admirei a disposição dela de encarar aquilo e tentar seguir em frente. Voltamos caminhando para a casa. Fiquei feliz por termos tirado aquele tempo para conversar, mesmo de um jeito tão lento que, em outra época, eu talvez tivesse evitado. ## 7. Pegando jacaré ### Eles já sabiam Na manhã seguinte, saí do quarto e vi a encosta verde, a piscina lá embaixo e o mar mais além, na névoa. Eu tinha chegado só no dia anterior, e íamos embora no dia seguinte. Nada tinha tempo de virar rotina. Ouvi conversa e barulho de louça do outro lado da construção. Quando dei a volta, o pessoal estava reunido numa mesa comprida com bancos. Achei um espaço e sentei. Alguém me ofereceu café. Antes que eu respondesse, outra pessoa disse que eu não tomava. O Laio tinha contado. Eu não precisei me explicar. Um pequeno detalhe sobre mim tinha chegado antes de mim e sido lembrado. A Natalia me ofereceu leite no lugar. Quase não tomo leite em casa, mas tomei na maioria das manhãs daquela viagem. Gostava de aceitar algo que as pessoas me ofereciam. Café era diferente. Eu já sabia que não gostava e não queria me forçar a tomar por educação. Essa distinção me pareceu útil. Eu podia estar disposto a experimentar coisas sem agir como se ter preferências fosse falta de educação. O pessoal daquela mesa tornava as duas coisas fáceis. O Laio e a Mariana ainda estavam dormindo. Todo mundo ali estava ligado por causa deles, mas o encontro não dependia de eles administrarem nada. Alguns daqueles amigos já tinham se visto quase todo dia, depois se espalharam por cidades e vidas diferentes. Pareciam à vontade para reencontrar o caminho da conversa. Eu estava me beneficiando de relações que o Laio e a Mariana já tinham construído, antes mesmo de eles se sentarem à mesa. Aos poucos, o pessoal foi se trocar. Enchemos um cooler de cerveja e petiscos, pegamos uma caixinha de som e fomos para a praia. ### Atravessando o rio Galhos formavam um arco sobre a estrada. O asfalto deu lugar à terra e à areia, e estacionamos numa clareira no meio do mato. Uma trilha estreita nos levou pela vegetação até o que achávamos que seria a praia. Em vez disso, ela desembocou num rio. Dava para ver o mar do outro lado, mas antes precisávamos atravessar. Alguém entrou para testar a profundidade. Em poucos passos, a água já batia quase na cintura. Levantamos as bolsas e os coolers acima da água e entramos. A Livia segurava a mochila no alto, mas numa hora calculou mal onde pisava e afundou mais do que esperava. O fundo da mochila foi parar no rio. Houve um susto coletivo rápido, e depois risada. Molhou, e a gente seguiu. Nos acomodamos num pequeno morrinho de areia com um pouco de sombra de árvore. As toalhas foram para o chão, e a caixinha de som ficou encostada num tronco. A Mariana queria música. Ela não fazia questão de cada escolha, mas silêncio não estava nos planos. Algumas vezes ela passou a seleção para mim. Quando as pessoas balançavam a cabeça, cantavam ou dançavam com algo que eu tinha escolhido, eu sentia um pequeno prazer em ter contribuído para o clima. Eu não precisava dominar uma conversa para fazer minha presença ser sentida. Podia oferecer uma música e ver o que ela tornava possível entre a gente. ### Esperar pela resposta A Natalia me perguntou o que eu fazia com o meu tempo agora que não trabalhava mais em tempo integral. Essa é uma pergunta mais difícil do que "com o que você trabalha". Engenheiro dá à maioria das pessoas uma categoria que elas reconhecem. Escrever um blog gera mais perguntas. Sobre o que eu escrevo? Por quê? Como eu publico? Eu vendo anúncio? E ainda tem as outras coisas. Bateria, estudos, tentar fazer escolhas conscientes sobre a vida que agora tenho tempo de viver. Uma profissão é uma resposta curta. Descrever o que importa para mim leva mais tempo. As pessoas que perguntavam ficavam para ouvir. Escutavam e faziam mais perguntas. Me peguei pensando se eu merecia aquela curiosidade. Era uma reação estranha a ser bem tratado, mas conhecida. Eu tinha passado fases da vida me sentindo à margem das conversas. Ali, as pessoas queriam me entender, e uma parte de mim se surpreendia por elas se darem ao trabalho. Poder continuar falando sem sentir que precisava justificar a atenção delas me fez bem. Mais tarde, a Carol falou sobre mindfulness. Descreveu o exercício de perceber os pensamentos sem ser imediatamente engolida por eles e de criar espaço entre uma reação e o que ela fazia em seguida. Falava como alguém que descreve uma prática que usou de verdade, com a clareza de quem trabalhou aquilo por conta própria. Todo mundo ouviu. Amigos que a conheciam havia anos faziam perguntas e acompanhavam a explicação dela. Eu estava interessado no que ela dizia, mas também no jeito como o grupo reagia. Conhecer alguém há muito tempo pode facilitar a suposição de que já entendemos a pessoa. Guardamos versões dos amigos de anos atrás, e essas versões podem ficar desatualizadas sem que a gente perceba. Eu tinha feito algo parecido, só que muito mais rápido. Tinha arquivado a Carol como parte do grupo do Laio antes de saber quase nada sobre ela. Agora ela falava de algo que importava para ela, e minha primeira impressão já não dava conta. Aquilo me fez pensar em quantas vezes deixo de perceber mudanças nas pessoas próximas porque não faço uma pergunta cuja resposta eu ainda não tenha ouvido. ### Nas ondas Em algum momento, corri para o mar e meti o ombro na espuma. Quando fiquei fundo o suficiente, comecei a pegar onda com o corpo. O Laio gritou: "Tá pegando jacaré?" Depois ele me explicou a expressão. É assim que se fala de pegar onda sem prancha. Pegar jacaré. "Sim", respondi. "Exatamente." Eu amo o tempo disso. A onda vem, esteja eu pronto ou não. Posso observar, me posicionar e me mexer na hora certa. Esforço desesperado não adianta se eu leio a onda errado. Naquela tarde, a conversa pareceu fácil do mesmo jeito. Eu não estava tentando forçar um assunto nem conquistar o interesse de ninguém. A curiosidade aparecia, e eu podia responder. Aquilo me fez perceber as vezes em que eu tinha me esforçado muito mais para me conectar muito menos. Mais tarde, ficamos só o Laio, o Daniel e eu com a água. Criamos uma rotina. Cerveja na areia, mar para as ondas, rio para boiar e filtrar a cerveja, depois de volta para a areia. E de novo. Minha respiração desacelerou. Senti o corpo relaxar de um jeito que me fez notar quanta tensão eu normalmente carregava. O Laio e o Daniel me contaram de uma noite em que se encontraram em Amsterdã. Um bar e conversas longas tinham virado uma das lembranças favoritas deles. A história não tinha nada de elaborado. A importância parecia vir de como tinha sido bom estarem juntos. Eles tinham uma energia travessa que me lembrou meu amigo de infância, James. A gente conseguia empurrar um ao outro para ideias questionáveis quase sem discussão. Uma vez, James e eu descemos uma ladeira de longboard segurando um paraquedas entre nós como se fosse uma vela. Outra vez, fomos andar pelos alagados de Bolsa Chica com armas de airsoft e atraímos um helicóptero da polícia. Lembro do holofote branco nos encontrando perto de um canal de drenagem. Congelamos. A voz no alto-falante mandou a gente parar de atirar nos passarinhos e ir para casa, e depois o helicóptero foi embora. A gente esperava algo muito pior. O alívio virou gargalhada. Lembrei de como eu conseguia ser desencanado com um amigo assim. A vergonha tinha menos poder quando nós dois já estávamos dispostos a pagar mico juntos. Em algum momento daquela tarde com o Laio e o Daniel, eu disse que estava vivendo, ali mesmo, uma das minhas lembranças favoritas. O Laio pareceu surpreso. Parou um instante e concordou. Fiquei feliz de ter dito aquilo enquanto ainda estávamos ali. Dizem que a gente só dá valor a algo quando perde. Não acho que seja verdade. A perda pode forçar o reconhecimento, mas a atenção pode criá-lo enquanto ainda há tempo de dizer isso às pessoas que estão dividindo o momento com você. ### Picanha Com o sol baixando, atravessamos o rio e voltamos para a casa. O Laio acendeu a churrasqueira a carvão e começou a assar uma picanha. Salgou a carne, cuidou dela e preparou os drinques. Ele parecia à vontade ali, fazendo algo que conhecia bem para pessoas de quem gostava. Não senti necessidade de assumir o comando nem de provar que eu podia contribuir do mesmo jeito. Eu podia aceitar o que ele queria nos dar. Ele me passou uma caipirinha. Deitei numa cama ao ar livre perto do bar, um colchão fino sobre ripas irregulares que de vez em quando deixavam alguém afundar entre elas e interrompiam a conversa com risadas. Quando a carne ficou pronta, o Laio cortou pedaços direto da peça e comemos com a mão. Só sal, carvão e carne. Foi uma das melhores carnes que já comi. Comi demais. A música continuou depois que escureceu. Quando tocou "Evidências", do Chitãozinho & Xororó, o pessoal reagiu com a intimidade de uma música que praticamente todo mundo parecia saber. A Mariana e o Laio se levantaram para dançar. Peguei o celular dela e gravei os dois. Ver a cena pela tela mudou o jeito como eu a percebia. O enquadramento estava torto, o movimento tremido, e as risadas se misturavam com a música. Já parecia algo que eu ia querer rever. Eu estava guardando uma porta de volta, e queria que eles também tivessem essa porta. A lua cheia iluminava a piscina e o mar mais além. As pessoas foram se dividindo em conversas menores, dançaram, contaram histórias. Eu não queria que a noite acabasse. Não havia mais nada que eu precisasse que ela se tornasse. ## 8. Marés, ligações e ruas de pedra ### Domingo A Natalia e o Daniel foram embora na manhã seguinte. A despedida foi rápida, e eu queria mais tempo com eles. Não precisava acontecer nada de especial. Mais uma hora qualquer já teria bastado. Eu não sabia quando nos veríamos de novo. Confiava que talvez sim, mas isso não tirava a tristeza de ver o grupo começar a se desfazer. O resto de nós foi de carro até um bar na praia, e estacionamos numa vaga apertada ao lado de uma cerquinha na altura do joelho. Eu via que, quando o Laio terminasse de estacionar, eu não ia conseguir abrir minha porta. Podia ter pedido para descer antes. Em vez disso, esperei e saí pela janela. O Laio ficou confuso. Por que eu simplesmente não tinha pedido para ele parar antes? Eu disse que achei que sair pela janela seria engraçado. E foi. Uma parte de mim não quis interrompê-lo, o que era conhecido. Mas eu também gostei de deixar um pequeno inconveniente ser divertido sem corrigi-lo na hora. Passo muito tempo procurando o jeito eficiente de fazer as coisas. Naquela manhã, o jeito desajeitado nos fez rir. O bar ficava na areia, com mesas, cadeiras de praia e guarda-sóis bem juntinhos. Comparada com as praias largas do sul da Califórnia que eu conhecia, aquela parecia compacta. A mata, as pessoas e a água estavam todas ali perto. O Raphael assistia à corrida de F1 enquanto o resto de nós conversava, tomava cerveja e beliscava petiscos. De novo apareceu música ao vivo. A essa altura, ouvir música à nossa volta já tinha começado a parecer normal. Saí da mesa e liguei para os meus pais enquanto caminhava pela areia. Ligo para o meu pai todo domingo. Bateu uma leve tentação de pular porque eu estava viajando, mas eu queria manter aquele espaço na semana. A ligação teve um cenário excepcionalmente bom. Areia quente, cheiro de maresia, o mar ao fundo. Contei para ele que estava aproveitando e descrevi as praias e o tempo. Algumas partes me lembravam o Havaí, para onde minha família ia a cada dois anos, havia décadas. Isso nos deu algo familiar a que conectar aquilo tudo. O que eu não conseguia explicar era o significado completo de estar ali. Eu podia compartilhar detalhes, mas a experiência ainda estava tomando forma dentro de mim. Fiquei um pouco frustrado com a distância entre o que eu estava vivendo e o que eu conseguia dizer sobre aquilo. Ainda assim, a ligação não precisava conter tudo. Isso é parte do motivo pelo qual valorizo tê-la com regularidade. A gente não precisa decidir se algo é importante o suficiente para merecer uma conversa. A conversa já tem seu lugar, e o que importa encontra o caminho até ela. Voltei para a mesa me sentindo mais firme. Mergulhar na viagem não exigia deixar o resto da minha vida desaparecer. ### Mais um mergulho Dava para ver as balsas levando gente para as ilhas ali perto. Havia muitas coisas que poderíamos ter feito, e eu estava contente onde estávamos. Em algum momento, a Carol e o Raphael foram embora. O Laio perguntou se os quatro que restaram queriam nadar. A praia ficava funda rápido. Em poucos passos, a gente saía da água rasa para a altura do peito. Pegamos jacaré e conversamos entre uma série e outra. A Mariana e a Livia saíram quando cansaram. O Laio e eu ficamos mais um pouco, e perguntei como ele e a Mariana tinham se conhecido. Os caminhos deles se cruzaram quando estudavam engenharia química. Eles se notaram, mas o relacionamento não começou com uma certeza imediata. Foram se conhecer melhor mais tarde, numa festa. Ele também me contou mais sobre o caminho da Mariana depois da faculdade. Ela não tinha ido direto para uma carreira convencional de engenharia. Tinha experimentado e acabou indo para a carreira de modelo e atriz. Gostei de ouvir o quanto o começo deles tinha sido comum. Às vezes eu esperava que a pessoa certa fosse ficar óbvia logo de cara. A história deles me deu motivo para questionar isso. O que eu conseguia ver entre os dois agora tinha levado tempo para crescer. Uma primeira impressão não teria dado conta de tudo aquilo. ### Paraty Voltamos para o Airbnb, arrumamos as coisas e seguimos para o norte, rumo a Paraty. O dia continuava grudado na gente: roupa úmida, sal e areia colada nas pernas. Eu sentia aquele cansaço específico de depois de horas na praia, feliz e meio esvaziado. No caminho, passamos por estruturas que cruzavam a estrada por cima. A Livia explicou que serviam para os macacos e outros bichos atravessarem. Gostei de perceber algo construído numa estrada pensando em outras vidas além das pessoas que dirigiam nela. Nosso próximo Airbnb era uma casinha menor num terreno maior, meio como um chalé. Largamos as malas e fomos para o centro histórico de Paraty. Casarões pintados e fachadas antigas ladeavam ruas de pedra irregulares. Ter crescido na Costa Oeste tinha me dado outra ideia do que conta como antigo. As mesas dos restaurantes ficavam nas ruas de pedestres. A gente andou até algum lugar parecer bom e comeu do lado de fora. Ambulantes vendiam apitos de madeira que imitavam canto de passarinho. Os cantos vinham de várias direções enquanto a gente andava. No começo achei aquilo desorientador. Depois virou parte de como eu reconhecia a cidade, um som que eu esperava ouvir na próxima esquina. O colchão da casa foi outra característica memorável, por motivos menos lisonjeiros. Ele parecia grosso e confortável na cama alta. Aí eu deitei e descobri o quanto ele não cedia. A aparência tinha feito uma promessa que o colchão não tinha a menor intenção de cumprir. Na manhã seguinte, me senti razoavelmente descansado. Quando os outros experimentaram o colchão, reagiram do mesmo jeito. Confusão, incredulidade, risada. Um dia bom pode ter um colchão duro. ### O barco amarelo O Laio tinha reservado um barco na noite anterior. No cais, era impossível não ver. Casco amarelo, detalhes amarelos e almofadas amarelas em forma de estrela-do-mar. Parecia alegre o suficiente para a escolha soar certa antes mesmo de subirmos a bordo. O barqueiro nos levou a três praias que só se alcançam pela água, com mata fechada atrás. Passamos por ilhotas, algumas com pedras esbranquiçadas pelos pássaros e outras com casas empoleiradas acima da margem. Levamos um cooler com cerveja e petiscos e passamos quatro ou cinco horas indo de praia em praia. Nadar, sentar, conversar, ficar em silêncio. Mergulhamos um pouco de snorkel e andamos um pouco. Eu cochilei. Outras pessoas cochilaram. Às vezes a calmaria me deixava inquieto. Eu estava acostumado a ter algo a que reagir. Quando não havia nada para fazer, eu sentia a vontade de inventar uma atividade só para parar de notar a falta de uma. Depois a vontade passou. A gente podia dividir a tarde sem ficar entretendo uns aos outros o tempo todo. Numa das praias, havia uma casa quase na areia. O barqueiro nos contou que um americano a tinha construído, deixado aos cuidados de um brasileiro e, quando morreu, deixado a casa para essa pessoa. Lembro de ouvir a história olhando para a casa, mais um jeito de aquele lugar se tornar particular para nós. Tirei fotos no barco e voltei com algumas de que gostei. Fotografando o Laio, reparei nos olhos dele com mais clareza do que antes. Verde-claro, especialmente brilhantes com o reflexo da luz. Às vezes se fala da fotografia como um jeito de sair de uma experiência. Pode ser. Mas ela também pode mudar o quanto eu olho de perto. Decidir sobre foco e enquadramento me faz notar coisas pelas quais eu passaria direto. Os olhos do Laio estiveram ali a viagem inteira. Precisei tentar fotografá-lo para prestar esse tipo de atenção. Depois do barco, almoçamos rapidinho, descansamos em casa e voltamos para a cidade. ### Lupita tem padrão Andar por Paraty à noite era música, conversa de restaurante e aqueles apitos de passarinho. A luz caía de forma irregular sobre as pedras. Eu não conseguia sumir por completo na conversa, porque a cada poucos passos precisava de um pequeno ajuste. Olhar o pé, mudar o peso, contornar o trecho irregular. No jantar, cachorros de rua circulavam entre as mesas. Uma escolheu a nossa e ficou. O nome dela era Lupita. Era insistente e deliciosamente gordinha. A Livia ofereceu a ela algo leve, talvez alface ou outra sobrinha pequena. A Lupita recusou. Cortei uns pedaços do meu bife e ofereci. Ela aceitou na hora. A Lupita tinha padrão, e nenhuma preocupação aparente em deixar isso claro. Mais tarde, a Mariana e a Livia quiseram um docinho, então paramos numa lojinha de conveniência chamada Open Store. O nome me fez rir. Em inglês, era de uma franqueza fora do comum. Do lado de fora, uma banda tocava forró e as pessoas dançavam na rua. Não havia nenhuma ocasião especial que eu conseguisse ver. A Mariana dançava enquanto comia o doce, sorrindo e completamente à vontade. Me lembrou o Laio na churrasqueira. Cada um parecia especialmente reconhecível quando fazia algo que amava, sem hesitar. Eu sei como é participar enquanto outra parte de mim assiste de fora, com olhar crítico. Consigo estar num ambiente e ainda assim dedicar boa parte da minha atenção a como eu pareço dentro dele. A Mariana parecia livre dessa discussão naquele momento. Estava dançando, comendo algo de que gostava e deixando os dois prazeres bem à mostra. Olhando para ela, me perguntei onde eu parecia tão natural assim. Eu queria mais daquilo que me deixava parar de me avaliar tempo suficiente para aproveitar estar ali. ## 9. Minas adentro ### Um sonho no café da manhã Na nossa segunda manhã em Paraty, a Livia acordou antes do Laio e da Mariana. Ela tinha saído para caminhar e voltou com um doce, que me entregou. Perguntei como se chamava. Um sonho. Era macio e doce, algo como um donut recheado, e tão bom que o nome parecia justo. A Livia não precisou de inglês para entender minha reação. Minha cara e os barulhos que eu fiz explicaram quase tudo. Íamos embora naquela manhã, e a essa altura arrumar o carro tinha virado tarefa minha. Ninguém me deu esse cargo. Eu insistia em tratar o porta-malas como um quebra-cabeça de engenharia até que todo mundo me deixou ficar com ele. As compras eram a parte difícil. Tínhamos uma caixa estilo engradado cuja grade estava começando a quebrar. Tinha um formato desajeitado e era mais frágil do que um engradado deveria ser. Toda vez que eu achava uma arrumação limpa, as compras ameaçavam complicá-la. Testei ordem de carregamento, pressão, quais bolsas podiam ser espremidas e o que precisava ficar à mão. Em Paraty, eu já conseguia visualizar a arrumação antes de começar. Depois de dias tentando afrouxar meu apego aos planos, eu continuava muito satisfeito de ter um sistema para o porta-malas. Quando todo mundo acordou, o Laio explicou para onde íamos. Íamos deixar o litoral rumo a Minas Gerais, para Serranos, onde a Mariana tinha nascido. Íamos conhecer parentes e passar um tempo nas terras da família. Pareciam umas poucas horas de carro. Levou quase o dia inteiro. ### Perguntar a alguém Por volta do meio-dia, paramos em Caxambu para comer num restaurante que tinham recomendado. A cidade tinha ruas estreitas, ladeiras e fachadas antigas de que gostei mesmo debaixo de céu cinza e garoa. O Laio mencionou as águas minerais de lá, num tom de brincadeira que me deixou com uma vaga lembrança de fontes mágicas nas montanhas. Estacionamos e fomos a pé até o restaurante. Fechado. Era terça. Na hora, quis pegar o celular e procurar outra opção. Já me imaginava comparando avaliações enquanto todo mundo esperava. A Mariana e a Livia foram até duas mulheres que fumavam debaixo de um toldo e perguntaram onde comer. As mulheres indicaram um restaurante por quilo e explicaram como chegar. Essa foi a solução inteira. O Laio disse que alguém da cidade saberia mais sobre onde comer do que o Yelp. Havia pessoas ali do lado que podiam nos ajudar, e eu tinha corrido primeiro para uma tela. Parte da minha hesitação em perguntar a estranhos vem da suposição de que estou incomodando. Mas, quando alguém me pede uma recomendação em casa, normalmente fico feliz em dar. Eu me concedo uma boa vontade que nem sempre concedo aos outros de antemão. O restaurante tinha balcões compridos de carnes, feijão, arroz, ensopados e legumes, incluindo pratos que eu não sabia nomear. Peguei porções pequenas de tudo o que parecia bom. Gostei de quase tudo. Parte da comida tinha um sabor profundo de lenha. As travessas ficavam sobre água quente, mantidas aquecidas por um arranjo prático que parecia estar cumprindo sua função havia muito tempo. Também gostei do sistema de pagamento. Cada pessoa recebia uma comanda de plástico com código de barras. Bebidas, sobremesa e extras iam para a comanda, e a gente pagava no fim. Eu já tinha visto arranjos parecidos em paradas de estrada com vários comerciantes. Uma pequena decisão de design tornava um espaço movimentado e compartilhado mais fácil de usar. Eu não conseguia deixar de reparar nessas coisas. Estava repensando para que servia a eficiência, mas não tinha perdido o gosto por algo que funciona. O refrigerante vinha gelado, sem gelo, a não ser que eu pedisse. No caixa, veio outra frase que eu estava começando a reconhecer. Débito ou crédito? Depois, de volta ao carro. ### A estrada para Serranos O terreno foi ficando mais agrícola e mais íngreme. O gado ficava em encostas que não pareciam nada confortáveis para ficar em pé, como se a inclinação não fosse problema deles. Então comecei a reparar nos cupinzeiros. Pastos inteiros salpicados deles. Formas cor de barro apareciam onde quer que houvesse grama, em número suficiente para mudar a cara da paisagem. Eu não parava de apontar. Todo mundo parecia menos impressionado, e o Laio achava graça no meu fascínio. Ali, eles eram comuns. Eu nunca tinha visto pastos assim e não conseguia parar de olhar. Também aprendi uma palavra de que gostei muito: cupim. Ouvi usarem para o inseto e também para o corte de carne. Gostei de encontrar a mesma palavra na paisagem e no churrasco. Quando chegamos a Serranos, seguimos para o Rancho Macota, a propriedade do tio da Mariana. Uma estrada serpenteava entre lagos e pequenas construções até a casa dele, no alto de um morro. O lugar tinha várias funções. Era casa, restaurante, espaço de eventos, espaço de lazer e lugar para hóspedes. O tio dela tinha construído boa parte daquilo ao longo dos anos. A Mariana me contou que as terras do avô tinham sido divididas entre os filhos depois que ele morreu. Alguns venderam suas partes. O tio dela ficou com a dele e foi desenvolvendo. Pelo que entendi, antes aquilo tinha servido para gado e madeira, com eucalipto entre as árvores plantadas. Essa história mudou o jeito como eu olhava a propriedade. Ele tinha ficado num lugar tempo suficiente para continuar acrescentando coisas. Eu estava acostumado a pensar em como seria fácil deixar uma casa. Ali estava um lugar cheio de coisas que existiam porque alguém tinha voltado, uma vez depois da outra, ao trabalho de fazê-lo seu. Havia um deque em forma de violão, lagos com peixes, um labirinto de blocos de concreto, um palco, chalés e móveis de madeira feitos sob medida. Ele mesmo serrava a madeira. Até os bancos do restaurante, com seus guarda-sóis, pareciam ter a cara de quem os tinha feito. Um dos chalés tinha um tronco de árvore incorporado à construção, com os galhos atravessando a linha da parede. Parecia que a construção tinha aberto espaço para a árvore. O tio da Mariana falava baixo. Quando perguntavam sobre a propriedade, ele parecia ter orgulho de explicar. Gostei de estar num lugar com tanta prova visível do trabalho contínuo de uma pessoa. O Laio e a Mariana estavam considerando a propriedade para o casamento deles. Saber disso deu à visita outro tipo de significado. Naquela noite conhecemos o tio dela, a esposa e o filho do casal, e comemos churrasco. O tio assava a carne enquanto a esposa preparava os acompanhamentos perto de um fogão a lenha tradicional, de tijolo. A maior parte da conversa foi em português. O Laio traduziu uma parte, e eu testei a tradução pelos AirPods. Atrasava e perdia coisas, mas, quando funcionava, me ajudava a acompanhar mais do que acontecia. Um menininho estava absorto dirigindo um carrinho de plástico em vez de jantar. A tia da Mariana ameaçou dar a comida dele para os sapos. Ele não pareceu nem um pouco intimidado. Continuou dirigindo. Achei a cena toda muito mais engraçada do que eu conseguiria explicar. ### O caminho da cachoeira Na manhã seguinte, decidimos visitar uma cachoeira. A previsão era de chuva, que já vinha e ia. A estrada começou normal, depois virou cascalho, depois terra, depois terra morro acima na chuva. Estávamos num carro sem tração nas quatro rodas. A estrada era estreita, com barrancos, e cruzar com outros veículos exigia diminuir e abrir espaço com cuidado. Numa hora o carro rabeou de leve. Foi o bastante para a aderência parecer algo que precisávamos continuar conquistando. Discutimos voltar. Um ônibus escolar veio no sentido contrário, e o Laio perguntou ao motorista quanto faltava de estrada de terra. A resposta fez parecer que estávamos perto de condições melhores. Era otimismo. Boa parte do que veio depois continuou esburacado e sem asfalto. Conversamos sobre a possibilidade de atolar. O tio da Mariana tinha uma caminhonete 4x4 que podia nos resgatar se precisasse, o que tornava seguir em frente mais administrável. Eu tinha experiência suficiente com pouca aderência para achar que manter um embalo controlado ia fazer diferença nas subidas. Falei isso para o Laio. Ele se manteve concentrado e calmo, e eu fiquei de olho nas beiradas da estrada enquanto ele dirigia. A situação concentrava vários tipos de incerteza que eu costumo evitar. Eu não estava dirigindo. Não tinha escolhido o destino. Não conhecia a estrada. Assumir o volante teria sido um jeito de me sentir mais no controle, mas me sentir mais no controle não necessariamente teria ajudado. Eu precisava ficar atento, oferecer o que eu sabia e deixar o Laio dirigir. Meu desconforto não me tornava automaticamente a pessoa que devia estar no comando. A Mariana e a Livia conversavam no banco de trás como se fosse um trajeto qualquer. Quando olhei para trás, percebi que elas estavam sem cinto e pedi que colocassem. Depois da tradução, a resposta foi que ali não tinha polícia. Eu disse que não estava preocupado com a polícia. Estava preocupado com a gravidade. Os cintos foram colocados. ### Filhotes na neblina Chegamos a um restaurante perto do topo. Parecia uma casa e só tinha outro grupo comendo. O salão parecia uma varanda coberta, com vidros finos entre nós e o tempo lá fora. A chuva batia no telhado, e a névoa encostava na minha pele. As nuvens escondiam a maior parte da vista da serra. A cachoeira ainda aparecia, e a chuva a tinha deixado poderosa. O pessoal de lá nos contou que a região costumava ser mais seca do que aquilo que estávamos vendo. Tínhamos chegado numa fase chuvosa, e ela tinha mudado tanto a viagem quanto a vista. Depois do almoço, notamos um cachorro entrando e saindo da área do restaurante. Seguindo-o, encontramos uma cadela com uma ninhada de filhotes recém-nascidos ali perto. Disseram que tinham nascido no dia anterior. Deviam ser uns dez, de cores diferentes. Passamos um tempo com filhotes na neblina da serra. Essa parte do dia exigia pouquíssima interpretação. Depois, um parente da Mariana nos mostrou uma plantação de frutas vermelhas. Tinha amora, framboesa e morango. Ele explicou que criavam abelhas para a polinização. ### Vinte minutos sozinho Mais tarde, encontramos um amigo da família da Mariana. Não lembro do nome dele. Lembro que usava chapéu de caubói, tinha terras e produzia carvão. Ele e a Mariana tinham combinado de colocar o papo em dia enquanto ela estava na cidade. Paramos num restaurante de posto de gasolina e, antes de entrar, perguntei ao Laio se eu podia dar uma pausa no carro. Ele disse que sim. Fiquei lá uns vinte minutos, descansando e esvaziando a cabeça. Os dias anteriores tinham sido de companhia quase constante. Eu não estava dirigindo nem fazendo planos, e mesmo as experiências boas tinham começado a me cansar. Em casa, passo a maior parte do tempo sozinho. Valorizo o contato com as pessoas, mas preciso de solidão para me recuperar dele. Eu não tinha deixado de precisar disso só porque estava grato por ser incluído. Aquele não tinha sido meu dia favorito. Gostei de partes dele, e fiquei feliz de ter ido, mas cachoeiras, plantações e conhecer um velho amigo de outra pessoa não eram exatamente como eu teria escolhido passar aquelas horas. Eu queria ser honesto sobre isso sem transformar a coisa numa reclamação contra as pessoas que estavam dividindo a vida delas comigo. Seguir os planos deles ainda deixava espaço para pedir que algo mudasse. Naquela tarde, vinte minutos no carro me deram espaço suficiente para voltar sem ressentimento. Sem a pausa, eu talvez tivesse confundido exaustão com um julgamento sobre as pessoas ou sobre o dia inteiro. Eu podia cuidar da minha necessidade de solidão e ainda assim ficar feliz de ter vindo. Em algum momento entrei. A conversa era principalmente entre a Mariana e o amigo, em português. Ele tinha curiosidade sobre mim, e eu sobre ele, então trocamos algumas perguntas. Na maior parte do tempo, eu ouvi. Não precisava que o Laio traduzisse cada palavra nem que a conversa passasse a ser minha. Aí a Livia elogiou o chapéu de caubói do homem. Quase na mesma hora, ele tirou o chapéu e colocou na cabeça dela. Deu para ela como se gostar dele fosse motivo suficiente para ficar com ele. Ela se iluminou. Me impressionou o quão pouca negociação aquele gesto exigiu. Ele tinha algo de que ela gostava, e queria que ela aproveitasse. ### Deixando Serranos De volta ao chalé, pedimos pizza e jogamos Mario Party. Eu estava muito feliz. Acho que a Livia nunca tinha jogado. Mudamos o jogo para português para ela acompanhar com mais facilidade. Eu conhecia as regras e os controles bem o suficiente para não precisar do inglês. Foi bom, para variar, fazer o ajuste nessa direção. Ninguém estava particularmente competitivo. Acho que nem terminamos. O jogo nos deu algo para fazer juntos, e isso bastava. Na manhã seguinte, todo mundo arrumou as malas e eu arrumei o carro. Estávamos quase prontos para sair quando a Mariana lembrou de uma coisa na casa. Subindo de carro, encontramos outro carro bloqueando o caminho. Enquanto a gente via como tirá-lo dali, a Mariana viu a moto de trilha do tio parada na beira da estrada. Ela estava de vestido. Levantou o vestido, deu partida no pedal e subiu o morro gritando "uhuuu" com um sorriso enorme. Ela tinha crescido andando de moto de trilha e tinha cicatrizes de tombos. Eu estava vendo outra parte dela que não tinha precisado aparecer até aquele momento. Ela voltou sorrindo, entrou no carro e seguimos. Paramos para ver parentes e amigos da família na saída. Visitas rápidas, cumprimentos, conversas, e depois mais uma parada. Mais tarde subimos até o alto de Serranos, onde fica a igreja, no topo do morro. Era dezembro, e tocava música de Natal. Perto do pôr do sol, sentei encostado numa árvore e fiquei olhando. Barro vermelho, grama verde, céu azul aparecendo entre as nuvens. Gado em terreno acidentado. Muros de pedra e estradas que ziguezagueavam pela cidade e pelas fazendas. Tirei fotos em Minas, mas alguns dos momentos que eu mais queria guardar não eram coisas que uma fotografia explicaria. Precisar ficar sozinho no carro. Ouvir a piada dos sapos. Ver o chapéu trocar de cabeça. Ser surpreendido pela Mariana na moto. A vista da igreja era linda. Assim como partes dos dias em que eu nem estava procurando vista nenhuma. ## 10. A ordem dentro da pressa ### Rumo ao sul Deixar Serranos fez o fim da viagem parecer mais perto. Até ali, cada partida levava a um lugar novo. Agora estávamos voltando para São Paulo e, mais cedo ou mais tarde, para o aeroporto. Por um trecho longo, o trânsito do outro lado da rodovia estava completamente parado. Os caminhões formavam filas que se estendiam estrada afora. Alguns motoristas tinham descido e estavam em pé ao lado dos veículos. A gente seguia para o sul enquanto as pistas no sentido norte continuavam paradas. Era fácil apreciar a nossa sorte do lado que andava. Eu sabia que minha reação talvez fosse menos generosa se estivéssemos nas outras pistas. Quando estou atrasado, tendo a olhar para os outros carros como gente no meu caminho. Minha viagem parece ser o propósito da estrada, e a deles vira interferência. Ver o engarrafamento de fora fez esse pensamento parecer tão egoísta quanto ele era. Eu não sabia por que aqueles motoristas estavam viajando nem o que o atraso ia custar para eles. Alguns podiam ter motivos para ter pressa muito mais sérios do que os meus. Eu estava numa viagem com amigos. Na maioria das vezes, nada de terrível acontecia se eu chegasse atrasado. Chegamos à casa do Laio naquela noite e dormimos lá. Na manhã seguinte, precisávamos devolver o carro alugado e levar a Livia à rodoviária. Ela estava visivelmente abalada. Depois, o Laio explicou que a mãe dela tinha ligado por causa de um dos cachorros delas, que estava muito mal e não conseguia se levantar para ir lá fora. Foi angustiante de ouvir, mesmo de segunda mão. Entendi por que ela queria voltar para casa. Os quatro devolvemos o carro, pegamos um Uber até o metrô e seguimos para o terminal rodoviário. À nossa volta, as pessoas atravessavam um dia de semana qualquer. Eu ainda estava descobrindo onde ficar e quando seguir; a maioria delas parecia saber exatamente o que vinha a seguir. ### O rapper No trem, um homem começou a fazer freestyle em português. Eu não entendia as palavras, mas curti a cadência. Ele parecia tranquilo e experiente. Depois descobri que parte do rap era sobre pessoas do vagão, inclusive eu. Pelo jeito, meus braços grandes me faziam parecer assustador. Aquilo me fez rir. Também me fez pensar em como eu tinha reagido a ele. Eu tinha evitado o contato visual de propósito. Em parte era hábito. Quando alguém se apresenta por dinheiro ou se aproxima com a mão estendida, muitas vezes tento continuar sem me envolver. Se eu reconheço a pessoa, tenho medo de que ela me peça algo diretamente, e aí vou ter que dizer não. Desviar o olhar parece mais fácil. Mas eu tinha gostado do que ele estava fazendo. Evitar o constrangimento significou esconder até essa pequena reação. A Livia sorriu, reconheceu a presença dele e deu dinheiro. Ele comentou as tatuagens dela e chutou que ela era vegetariana. Acertou. Os dois tiveram uma interação comum enquanto eu me esforçava para impedir uma. O que me incomodou depois foi o quão pouco eu precisaria ter feito. Podia ter sorrido ou acenado com a cabeça. Curtir uma apresentação não exigia nem ignorar o artista nem concordar com qualquer coisa que ele pudesse pedir. Havia espaço para um simples reconhecimento, e eu não usei. Na rodoviária, ficamos com a Livia até ela ter a passagem e saber qual ônibus pegar. Tínhamos passado mais ou menos uma semana juntos, dividindo viagens de carro, praias, refeições e o vaivém lento da tradução. Eu estava feliz por ela ter vindo com a gente. Na despedida, eu a abracei e dei um beijo no rosto dela. Queria que o carinho ficasse claro, mesmo que o meu português não ficasse. Eu ainda estava pensando no rapper e em como eu deixava com tanta facilidade a possibilidade de errar um momento me impedir de participar dele. Muitas das pessoas que conheci tinham se disposto a se comunicar comigo sem esperar condições ideais. Palavras, gestos, tom de voz, um celular quando precisava. Elas tentavam, e em geral sentido suficiente chegava do outro lado. Eu podia fazer o mesmo esforço. Queria que a Livia soubesse que eu tinha gostado de estar com ela e que ia sentir saudade. Isso valia um pouco de falta de jeito. ### Um problema nada glamoroso Depois que ela foi embora, caminhamos um pouco e paramos para almoçar. A Mariana percebeu que eu não estava comendo muito. Contei que estava com o intestino preso. Suspeitava que a quantidade de carne e arroz que eu vinha comendo, com menos fibra do que o normal, tinha contribuído. Qualquer que fosse a causa, eu estava desconfortável, e admitir aquilo era levemente humilhante. O Laio e a Mariana reagiram de forma prática. A Mariana sugeriu alimentos, fez chás e ficou de olho em mim. O mamão, que tinha aparecido no café da manhã a viagem toda, ganhou uma nova função nas nossas conversas. A atenção deles me lembrou minha mãe cuidando de mim quando eu estava doente. Sem cerimônia, sem necessidade de tornar a situação digna. Eu estava desconfortável, e eles queriam ajudar. Ficou mais fácil depois que eu falei. Antes, o problema era algo privado para administrar enquanto eu tentava agir normalmente. Depois, eu continuava com o intestino preso, mas menos sozinho com isso. ### Hora do rush Pegamos o metrô de volta naquela tarde. Numa baldeação, uma multidão saiu rápido do trem em direção às escadas e à próxima plataforma. No começo, parecia quase um estouro de boiada. Na escada rolante, o Laio explicou que quem fica parado fica à direita para que os outros possam passar pela esquerda. Na plataforma, as pessoas formavam filas ao lado das portas, deixando espaço entre elas. Ele descreveu o que ia acontecer quando o trem chegasse. Algumas pessoas na frente queriam sentar e dariam passagem se os lugares já estivessem ocupados. Se a gente topasse ir em pé, podia avançar. Então eu vi acontecer. As pessoas embarcavam, os assentos se enchiam, algumas esperavam e outras avançavam. O processo andava rápido sem precisar de uma discussão a cada vez. O que parecia caótico ficou mais compreensível quando consegui ver os combinados por dentro. As pessoas abriam espaço, esperavam, passavam e se moviam na hora certa. Pensei de novo na rodovia da volta. As outras pessoas não estavam simplesmente no caminho. Nossa capacidade de usar o mesmo espaço dependia de responder umas às outras. Na estação perto da casa do Laio, a chuva forte fez um Uber parecer mais atraente do que ir a pé. Quando chegamos em casa, a noite tinha as possibilidades vagas de sempre. Talvez um filme. Talvez cozinhar. Talvez sair. Fomos a pé ao mercado, compramos comida, e o Laio fez macarrão. Quando terminamos de comer e arrumar, o dia estava quase acabando. Mercado, macarrão, chuva, casa. Eu tinha passado tantas noites comuns sozinho que fazer essas coisas com o Laio e a Mariana era parte do que tornava a viagem diferente. Eu queria tempo dentro da vida deles, e aquele era um pouco desse tempo. ### Uma notícia boa e uma ruim Na manhã seguinte, a Mariana perguntou se eu estava melhor. Ainda não estava. Ela e o Laio continuaram cuidando de mim, e seguimos com o dia. Em algum momento jogamos Mario Party. Não lembro quem ganhou nem o que aconteceu no jogo. Lembro de uma sala tranquila, conversa sem rumo e ninguém levando nada muito a sério. Uma hora eu fui ao banheiro. Quando voltei, disse ao Laio que tinha uma notícia boa e uma ruim. A boa era que o intestino tinha soltado. A ruim era que eu tinha entupido a privada dele. Não havia uma versão digna daquele anúncio. A gente riu e seguiu em frente. Mais tarde, a Mariana quis cantar. O Laio pegou o violão, e ela e eu cantamos junto. Esquecemos letras, recomeçamos músicas e rimos quando as coisas desandavam. Não tinha nada de polido naquilo. Gostei do quão pouco isso parecia importar para eles. Eu gosto de cantar, mas muitas vezes hesito porque não soo do jeito que eu queria. Se eu não gostaria de mostrar o resultado, começo a sentir que nem deveria tentar. Isso me deixa numa posição ridícula. Quero cantar melhor, mas evito praticar porque ainda não canto melhor. Com o Laio e a Mariana, eu podia esquecer a letra, recomeçar e continuar cantando. ### Antes da bateria Naquela noite, a Mariana se arrumou para sair. Perguntei para onde íamos, e o Laio disse que não sabia direito. Ela estava no comando do plano. Chegamos a um lugar que parecia uma laje de concreto com um toldo cobrindo parte dela, uma barraquinha ou trailer servindo cerveja e equipamentos de cervejaria ali perto. Eu não conseguia encaixar aquilo numa categoria arrumada. As pessoas tinham se reunido, e havia espaço para música. Antes de o evento maior começar, o Laio e a Mariana dançaram "Um Sonho", da Nação Zumbi. Gravei os dois de novo, dessa vez para mim. O vídeo anterior, em Ubatuba, tinha ficado no celular da Mariana. A essa altura, vê-los dançar tinha mais significado para mim, porque eu sabia algo da dificuldade que eles estavam enfrentando. A proposta do Laio era ir para o Texas a trabalho. Ele ia embarcar no dia seguinte à minha partida do Brasil. Os planos tinham se resolvido rápido, sem muito tempo para nenhum dos dois se acostumar com a mudança. A Mariana vinha pensando que aquele talvez fosse seu último Carnaval antes de ser mãe. Ele representava um tipo de liberdade que ela queria aproveitar, e o Laio ia perder. Essa esperança convivia com o valor da oportunidade de trabalho dele. Uma não fazia a outra desaparecer. Eu tinha visto parte da tensão. Agora eu os via se abraçando e se inclinando um para o outro para conversar enquanto dançavam. Às vezes eu tinha imaginado um bom relacionamento como aquele em que o acerto seria óbvio e as decisões viriam naturalmente. A situação deles pedia mais. Uma oportunidade que valia a pena ainda podia doer. Gostar um do outro não tornava o momento conveniente. Vendo os dois dançarem, eu enxergava o carinho continuando dentro de uma dificuldade que ele não tinha resolvido. Aquilo me pareceu uma coisa mais crível para se desejar. Então começou a chegar mais gente com roupas elaboradas. Descobrimos que uma bateria de escola de samba ia ensaiar ali para o Carnaval. Quando os tambores começaram, a noite mudou. A percussão encheu o espaço com uma pressão que eu sentia no corpo. Ritmo sobre ritmo, e as pessoas se movendo junto. Tomamos cerveja e dançamos. A bateria tocou por horas, e o público foi diminuindo devagar conforme a noite avançava. ### Até a fila do raio-x No dia seguinte, fomos a um churrasco na casa da tia do Laio. Conheci a avó dele, os pais, o irmão, a cunhada e o sobrinho. A comida saía da churrasqueira enquanto as pessoas circulavam entre conversas e cômodos. Uma hora tivemos que ir. Passamos para pegar minha mala e fomos para o aeroporto. Eu esperava ser deixado na calçada. Em vez disso, o Laio estacionou, e ele e a Mariana entraram comigo. Reconheci o gesto na hora. No começo, o Laio tinha arranjado tempo para me encontrar lá dentro. Agora os dois estavam arranjando tempo para ficar enquanto eu ia embora. Abracei os dois e tentei dizer o quanto a viagem tinha significado. Depois entrei na fila da segurança. Conforme ela andava, eu continuava olhando para trás. Eles ainda estavam lá. Minha mala estava comigo. Eu sabia para onde estava indo. Eles ficaram além do que era útil, dando tempo à despedida e me dando espaço para sentir o quanto eu ia sentir falta das pessoas que continuavam ali, em pé. Depois de passar pelo raio-x, me virei mais uma vez e dei um tchau enorme. Depois caminhei até o portão. De tudo o que vi no Brasil, essa imagem ficou especialmente nítida. Duas pessoas ficando um pouco mais porque eu ainda estava ali para vê-las. ## 11. O que levo para casa ### Sozinho de novo Assim que me virei para o portão, a mudança foi imediata. Eu estava de novo seguindo meu próprio caminho. Durante duas semanas, eu tinha me movido junto com outras pessoas. Alguém dirigia, alguém traduzia, alguém cozinhava, alguém geralmente sabia o que vinha a seguir. Eu tinha me acostumado a ser incluído nas decisões sem precisar gerar cada uma delas. Agora eu tinha umas duas horas antes do voo e precisava comer alguma coisa. O primeiro restaurante não tinha lugar, então voltei a uma lanchonete pela qual eu tinha passado. No balcão, vi coxinha e pedi duas. Não eram as melhores que comi na viagem. Mesmo assim, estavam boas. A essa altura, estou bem convencido de que não existe coxinha ruim, só coxinha boa em diferentes graus de excelência. Foi uma decisão pequena e satisfatória de tomar sozinho. Eu sabia de algo de que gostava e que não conhecia antes de vir. No voo noturno, quase não dormi. Liberdade e solidão chegaram juntas. As duas eram conhecidas. Normalmente passo boa parte da vida sozinho, fazendo minhas próprias escolhas, e, num certo sentido, eu estava voltando para algo confortável. Mas eu sentia o embalo compartilhado da viagem chegando ao fim. Não havia a próxima refeição aparecendo, nenhuma pessoa nova para conhecer porque alguém tinha combinado, nenhuma viagem de carro cujo destino seria explicado no caminho. Eu não parava de me perguntar: e agora? Parecia chegar ao fim de uma esteira rolante. Por um tempo, o movimento tinha acontecido sem que eu precisasse produzi-lo inteiro. Então os degraus se achataram e eu precisei andar. Pousei em Chicago ainda de madrugada. Depois do trenzinho até o ônibus do estacionamento, saí para o frio de dezembro. A primeira rajada de ar de inverno me reivindicou de volta. Eu estava de novo no Meio-Oeste, e a distância do Brasil de repente pareceu física. Eu sabia que queria voltar. Queria mais tempo com aquelas pessoas e tempo suficiente no país para parte da estranheza ir embora. Queria ficar meses, o suficiente para estar lá parecer vida comum. Depois de voltar para casa, comecei a aprender português e a fazer planos para uma volta mais longa. ### O que mudou Minha vida não ficou radicalmente diferente depois. Eu continuava morando no Meio-Oeste, passando muito tempo sozinho e com muitas das mesmas rotinas e responsabilidades. Os hábitos que eu tinha percebido no Brasil voltaram para casa comigo também. Eu ainda queria otimizar as coisas. Ainda hesitava antes de pedir ajuda. O que eu mais confiava era a perda mais silenciosa de uma velha desculpa. Eu ainda podia dizer que não era de dançar, mas agora tinha a lembrança de ter dançado. Podia supor que pedir ajuda seria um peso para alguém, mas também lembrava da boa vontade com que as pessoas tinham ajudado. As velhas histórias não tinham desaparecido. Tinham ficado menos convincentes. As pessoas que me receberam não pareciam exigir uma versão de mim que nunca precisasse de nada. Elas traduziram, abriram espaço e se importaram quando eu estava desconfortável. Parte disso exigiu esforço. Elas escolheram fazer esse esforço. Quero aprender a aceitar melhor essa escolha. Receber cuidado não precisa virar um problema urgente de retribuição. Posso ser grato e ainda assim deixar o presente continuar sendo presente. Também quero pedir de forma mais direta o que eu preciso. A pausa de vinte minutos no carro importou tanto quanto todas as vezes em que eu entrei na roda. Seguir os planos de outra pessoa ainda me deixava responsável por dizer quando eu precisava de algo diferente. ### Um ritmo que vale manter Voltei para casa querendo mais vida compartilhada, mas não voltei querendo abandonar a estrutura. A viagem tinha muita estrutura. O café da manhã acontecia. As refeições nos davam motivos para nos reunirmos. Mantive minha ligação de domingo. A viagem parecia espontânea para mim porque eu era convidado. O Laio e a Mariana estavam fazendo planos e um trabalho que eu nem sempre via. Minha liberdade de ir junto dependia, em parte, da disposição deles de organizar as coisas. Durante anos, minhas rotinas tinham me tornado confiável no trabalho. Eu ainda valorizava essa capacidade. Mas também queria hábitos que facilitassem o tempo com as pessoas, que dessem à escrita e à música um lugar para acontecer, e que deixassem espaço para uma tarde cujo valor eu não conseguisse medir de antemão. O forró continuou sendo uma imagem útil. Uma batida compartilhada reduzia a incerteza o suficiente para as pessoas se moverem livremente juntas. O objetivo de aprender os passos era, um dia, conseguir dançar. Não preciso que cada parte da vida vire uma conquista antes de merecer espaço. Cantar pode ser gostoso enquanto ainda estou aprendendo. Falar português pode me conectar a alguém antes de eu falar bem. Um encontro pode valer a pena sem uma ocasião importante o bastante para justificá-lo. Não consigo levar para casa aquela tarde exata na praia, nem reproduzir o momento em que uma sala começou a cantar junto. Posso perceber o que ajudou esses momentos a acontecerem. As pessoas ficaram tempo suficiente para passar das apresentações. Alguém fez comida. Alguém ofereceu uma música. Alguém fez uma pergunta e esperou a resposta. Eu posso fazer essas coisas. E posso também responder quando alguém as oferece para mim. Quero voltar ao Brasil. Quero um português melhor e mais tempo com as pessoas que abriram espaço para mim. Também quero que a vida entre uma viagem e outra tenha mais do que eu valorizei lá. Mais disposição para começar. Mais música. Mais tempo junto que não precise servir para mais nada. Quero construir aqui uma vida que se lembre do que aprendi lá.